História que o povo conta: o encontro do além

Os idosos sempre contam experiências assustadoras. Em meados de 1990, dois amigos planejaram um final de semana regado de bebida, música e muitas mulheres bonitas. Eles chegaram a fazer uma aposta de quem ia ficar com a mulher mais bonita do baile. Eles se arrumaram, colocaram as melhores roupas e usaram perfumes importados para chamar a atenção das gatas. Próximo ao cemitério municipal em Itu havia uma casa noturna muito famosa. O espaço era muito frequentado por pessoas de diversas regiões. Quem é dessa época vai se lembrar. Eles começaram a beber, dançar e de repente uma linda mulher chegou e tirou a atenção de todos que estavam por lá. Ela era diferente: roupas, sapatos, penteado, maquiagem, um perfume de rosas que tomou conta da balada. Ninguém sabia quem ela era. De onde veio? O que fazia? Só se sabe que ela foi vista chegando sozinha. As pessoas observavam cada passo que ela dava. Era como se ela fosse do século passado. Ela usava um vestido longo Making a Floral 1830. O traje já não era mais comum para a época. As pessoas arrasoavam-se e até diziam que ela havia pensado que aquela noite seria uma festa à fantasia. As mulheres enciumadas pediam para seus namorados ou maridos não ficarem olhando para ela por conta de sua beleza. Os amigos ficaram perplexos. Um deles falou que ela seria sua parceira para a noite. Enquanto o outro duvidou e disse que ela era muita areia para seu caminhãozinho. Expressão usada quando uma pessoa não tem capacidade, condições ou recursos para lidar com uma situação, tarefa ou até mesmo conquistar alguém. Mas como eles haviam apostado, não custava nada investir. O mais audacioso se aproximou e iniciou uma conversa, a chamou para dançar e ela aceitou. Ambos conversaram, deram risadas. Ela se mostrou recatada: não quis dar detalhes sobre sua vida pessoal. Apenas disse que no momento não estava aberta para relacionamentos ou conhecer alguém. Foi enfática em dizer que havia sofrido muito em seu último relacionamento e, que por conta disso, não confiava mais em ninguém. Já o rapaz se mostrou interessado pelo fato dela não ser uma mulher leviana. As horas se passaram e a jovem disse que precisava ir embora pois já havia dado seu horário. O homem a respondeu olhando para o relógio, que estava cedo demais e que a festa estava só começando. Faltavam alguns minutos para às 00h00. Ela retrucou dizendo que se ela não voltasse dentro do horário combinado, seria impedida de sair novamente, mas não falou quem ia dar-lhe o castigo. Preocupado com sua segurança, o rapaz se propôs a levá-la para casa. A mulher disse que não seria possível e que não ia pegar bem se alguém a visse com um estranho. O jovem estava deslumbrado por ela e não queria perder seu contato. Ele a convidou para ir à balada mais vezes. Era uma noite muito fria e o rapaz ofereceu-lhe uma blusa. Na verdade, ele queria vê-la novamente. Naquela ocasião, nem todas as pessoas tinham um celular. Eram só aquelas com boas condições financeiras. A linda mulher aceitou o agasalho mas com uma condição: que ele fosse buscar a blusa no dia seguinte, mas durante o dia. Ela disse que morava naquela redondeza, anotou o endereço em um pedaço de guardanapo de papel e o jovem guardou no bolso da calça. Ele ficou tão entusiasmado que nem fez questão de olhar a localidade. A jovem se foi. Já ele não parava de pensar nela. Seu amigo lhe aconselhou a não se iludir. No dia seguinte, o homem foi no endereço que ela havia lhe passado: Praça da Bíblia – Vila São Francisco. Ele estava ansioso para vê-la novamente e pegar sua blusa. O jovem percorreu a avenida toda e não achava a casa daquela que ele dizia que seria sua futura esposa. Tinha algo estranho. Muito estranho. Depois de muita procura, finalmente encontrou. O endereço tratava-se do cemitério municipal. Sem acreditar no que estava acontecendo, ele procurou a quadra e a alameda que estava no papel. Entre as sepulturas, ele viu uma lápide que lhe chamou a atenção: a foto da mulher pregada em um jazigo antigo e ao lado a blusa que ele tinha lhe emprestado. Ela havia falecido há muitos anos. O rapaz ficou muito assustado e saiu correndo. Pelo que se sabe ele ficou um tempão com problemas psicológicos. Até se mudou de cidade.
História narrada por Maria Moraes, moradora do Bairro São Luiz. Ela frequentava a casa noturna.






