Antes de apagar essa foto, espere alguns anos


A criança saiu correndo.
O cabelo estava bagunçado.
Ninguém olhou para a câmera.
A sala estava cheia de brinquedos.
A foto ficou um pouco torta.
E o nosso primeiro impulso é:
apagar.
Vivemos em uma época em que podemos repetir uma fotografia quantas vezes quisermos. Se alguém piscou, fazemos outra. Se o sorriso não ficou perfeito, repetimos. Se o fundo não está bonito, mudamos de lugar.
E, sem perceber, podemos começar a acreditar que somente as fotografias bonitas merecem ser guardadas.
Mas existe uma coisa que o tempo nos ensina:
nem sempre a fotografia mais bonita será a mais importante.
Pense nas fotografias antigas da sua própria infância.
Talvez você tenha uma imagem na cozinha da casa da sua avó. Uma fotografia brincando no quintal. Um aniversário com um bolo simples sobre a mesa. Uma foto em que ninguém estava combinando a roupa e certamente ninguém pensou se aquele ambiente era “instagramável”.
Mesmo assim, quando você olha para aquela imagem, começa a procurar detalhes.
“Eu tinha esse brinquedo!”
“Olha o sofá da casa da minha mãe!”
“Eu me lembro dessa roupa.”
“Era assim a cozinha da minha avó!”
De repente, aquilo que parecia apenas o fundo da fotografia se transforma em parte da memória.
O cotidiano também merece ser fotografado
Nós nos preocupamos muito em registrar os grandes acontecimentos: aniversários, viagens, formaturas, festas.
E devemos registrá-los.
Mas a maior parte da nossa vida não acontece nos grandes eventos.
Ela acontece nos dias comuns.
No café da manhã antes da escola.
Na criança dormindo no sofá.
Na bagunça dos brinquedos pela sala.
No banho demorado.
No colo depois de um dia difícil.
Na história contada antes de dormir.
São momentos que hoje parecem repetitivos justamente porque fazem parte da rotina. Até o dia em que deixam de acontecer.
Os brinquedos desaparecem da sala.
A criança já não pede colo.
A mochila muda de tamanho.
O quarto muda.
A voz muda.
E aquela rotina que parecia tão comum passa a fazer uma falta enorme.
Por que as fotos imperfeitas podem se tornar tão importantes?
Porque uma fotografia não guarda apenas rostos. Ela também registra lugares, objetos, gestos, relações e pequenos detalhes de uma época.
Às vezes, anos depois, é justamente aquilo que parecia atrapalhar a foto que mais chama a nossa atenção: o brinquedo no chão, a decoração da casa, uma roupa muito usada, o cachorro passando ao fundo ou o jeito como uma criança se apoiava no colo dos pais.
A fotografia ganha valor não apenas pelo que mostra, mas pelo que consegue fazer a memória reencontrar.
É por isso que uma imagem tecnicamente imperfeita pode se tornar emocionalmente insubstituível.
Fotografe também aquilo que você acha que nunca vai esquecer
Existe uma frase que escuto com frequência:
“Eu nunca vou esquecer disso.”
Mas esquecemos.
Não porque aquele momento não tenha sido importante. Simplesmente porque novas lembranças chegam e alguns detalhes vão ficando para trás.
Esquecemos o tamanho das mãozinhas.
O jeito engraçado de dormir.
O brinquedo preferido.
O cabelo despenteado pela manhã.
Até algumas expressões que nossos filhos faziam todos os dias.
É aí que a fotografia se torna tão poderosa.
Ela não substitui a memória, mas pode devolver a ela detalhes que o tempo levou.
Fotos do cotidiano e ensaios de família não precisam competir

Registrar a rotina não significa abrir mão das fotografias planejadas.
Continue fazendo as fotografias bonitas.
Faça os ensaios.
Arrume a família.
Escolha aquela roupa especial.
Um ensaio de família, por exemplo, permite registrar com intenção fases que também passam depressa. O mesmo acontece com momentos muito específicos da história familiar, como a gestação e os primeiros dias de um bebê em um ensaio newborn.
Esses registros têm seu lugar.
Mas fotografe também o que acontece entre eles.
Fotografe a vida como ela é.
A casa vivida. A roupa repetida. O brinquedo favorito. A risada inesperada. O abraço sem preparação. A criança que não quis parar para olhar para a câmera.
Porque nem toda fotografia precisa nascer com a missão de ser bonita.
Algumas só precisam sobreviver ao tempo.
Antes de apagar, olhe mais uma vez
Talvez seja esse o exercício mais simples: antes de apagar uma fotografia porque ela ficou torta, desfocada, bagunçada ou diferente do que você imaginava, pergunte se existe alguma coisa ali que poderá fazer falta um dia.
Nem toda foto precisa ser guardada, claro.
Mas algumas imagens que hoje parecem comuns podem se tornar registros preciosos justamente porque mostram uma vida que não foi organizada para a câmera.
Daqui a 20 anos, talvez você encontre uma fotografia tecnicamente imperfeita, com brinquedos espalhados pelo chão e uma criança correndo desfocada ao fundo…
e perceba que ela ficou perfeita.
Não porque era uma grande fotografia.
Mas porque ali estava um pedacinho da vida que você daria tudo para visitar novamente.
Talvez seja essa uma das perguntas mais importantes que a fotografia pode nos fazer:
Do que você quer se lembrar amanhã?
Maria Alice Mazzucco (Malice)
Fotógrafa, publicitária e fundadora do Estúdio Malice Fotografia, em Itu (SP), especializada em gestantes, newborn e famílias. Conheça também a história de Maria Alice.
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