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Você fotografa para guardar ou para lembrar?]

 Você fotografa para guardar ou para lembrar?]

Outro dia, enquanto procurava uma fotografia no celular, percebi uma coisa curiosa.

Passei por centenas de imagens que eu nem lembrava que tinha feito.

Fotos de viagens. Dos filhos. De almoços em família. De momentos engraçados. De dias absolutamente comuns.

Estava tudo ali.

Guardado.

Mas fazia muito tempo que eu não olhava para aquilo.

E fiquei pensando: será que estamos fotografando mais e lembrando menos?

Nunca tivemos tantas fotografias

Hoje, qualquer momento pode ser registrado em segundos.

Pegamos o celular, fazemos uma foto e, muitas vezes, outras cinco, dez ou vinte versões da mesma cena. Escolhemos uma para postar, enviar para alguém ou simplesmente guardar.

E seguimos o dia.

A fotografia vai para a galeria junto com prints, documentos, receitas, imagens de produtos que pensamos em comprar e tantos outros registros.

Em poucos dias, aquele momento que parecia tão importante já está centenas de fotografias para trás.

Nós o registramos.

Mas será que realmente o guardamos?

Talvez essa seja uma das grandes contradições da fotografia hoje: nunca produzimos tantas imagens e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas fotografias que raramente voltamos a ver.

Antigamente, fotografar também envolvia um ritual

Quem viveu a época dos filmes fotográficos provavelmente se lembra.

Havia 24 ou 36 poses. Era preciso escolher o momento, fotografar e esperar.

Depois vinha a revelação — e a curiosidade para descobrir se as fotografias tinham ficado boas.

Quando finalmente chegavam, olhávamos uma por uma.

Algumas iam para porta-retratos. Outras encontravam lugar nos álbuns da família.

E esses álbuns eram revisitados.

Sentávamos no sofá. Mostrávamos para as visitas. As crianças perguntavam quem eram aquelas pessoas, onde aquela fotografia tinha sido feita ou por que todo mundo estava vestido daquele jeito.

Uma fotografia puxava uma história.

Depois outra.

E outra.

Não acho que precisamos voltar a fotografar apenas 24 ou 36 vezes. A tecnologia nos deu algo maravilhoso: a possibilidade de registrar praticamente tudo, inclusive aqueles pequenos acontecimentos cotidianos que antes talvez passassem sem nenhuma fotografia.

Talvez só precisemos recuperar uma parte daquele antigo ritual:

o hábito de voltar para as fotografias.

Como organizar as fotos do celular sem transformar isso em uma tarefa enorme?

Tenho uma sugestão simples: faça uma pequena curadoria da sua própria vida.

No final de cada mês, reserve alguns minutos para abrir a galeria do celular e escolher dez fotografias.

Só dez.

Não precisam ser as mais bonitas, mais bem enquadradas ou aquelas em que todo mundo está olhando para a câmera.

Escolha as imagens que contam como foi a vida naquele mês.

Pode ser uma viagem, uma festa ou uma ocasião importante.

Mas também pode ser seu filho dormindo no sofá.

O cachorro deitado ao lado das crianças.

Um almoço na casa dos avós.

Um desenho esquecido sobre a mesa.

Uma tarde no parque.

A bagunça de um aniversário.

Uma fotografia em que todo mundo saiu despenteado, mas estava feliz.

Crie uma pasta com o mês e o ano. Ao final de 12 meses, você terá 120 imagens capazes de contar um pedaço da história da sua família.

Depois, escolha algumas para imprimir.

Esse pequeno hábito ajuda a transformar um arquivo quase infinito de imagens em uma memória que pode ser revisitada.

Por que imprimir fotografias ainda faz sentido?

Uma fotografia escondida entre outras 30 mil imagens continua existindo.

Mas dificilmente participa da nossa vida.

Já uma fotografia impressa sobre um móvel provoca encontros inesperados. Um álbum encontrado em uma gaveta pode parar uma tarde inteira.

Uma criança abre uma página, aponta para uma imagem e pergunta:

“Eu era assim?”

E começa uma conversa.

Quem estava ali? Onde vocês moravam? Quem tirou aquela foto? Eu já conhecia a vovó? Por que eu estava fazendo essa cara?

É nesse momento que a fotografia cumpre uma função que vai muito além do registro.

Ela ajuda a contar histórias e a manter vivas as memórias de uma família.

Talvez seja também por isso que os ensaios de família tenham um significado que cresce com o passar do tempo. No dia da sessão, estamos fotografando quem aquelas pessoas são naquele momento. Anos depois, a mesma imagem passa a mostrar também aquilo que mudou.

O tamanho das crianças.

Os cabelos.

Os abraços.

Os gestos.

As fases que pareciam durar para sempre — e não duraram.

Fotografias comuns também contam histórias importantes

Quando pensamos em memória familiar, é fácil imaginar apenas grandes acontecimentos: nascimento, aniversário, casamento, viagens ou comemorações.

Mas a vida de uma família acontece principalmente entre esses eventos.

Ela está no café da manhã corrido, nos brinquedos espalhados pela sala, na criança que insiste em usar a mesma fantasia durante uma semana, no colo antes de dormir, no cachorro que aparece em todas as fotos e nas visitas à casa dos avós.

Por isso, nem toda fotografia precisa ser extraordinária para se tornar importante.

Às vezes, justamente aquela imagem aparentemente banal é a que mais consegue nos transportar para uma época.

Com o passar dos anos, detalhes que pareciam irrelevantes começam a ganhar outro significado.

O valor de uma fotografia muda com o tempo

Talvez uma das coisas mais interessantes sobre fotografias seja esta: o valor de uma imagem nem sempre está no momento em que ela é feita.

Uma fotografia de hoje pode parecer apenas bonita.

Daqui a dez anos, ela também mostrará como seu filho segurava sua mão.

Como era o quarto.

Qual brinquedo ele carregava para todos os lugares.

Como vocês se olhavam.

Como era a família naquela fase.

É algo que observo também no meu trabalho como fotógrafa de gestantes, recém-nascidos e famílias.

Quando fotografamos um bebê com poucos dias de vida, por exemplo, estamos registrando características que mudam muito rapidamente. Quando fotografamos uma gestação, registramos um período que tem começo, meio e fim — mesmo que, enquanto estamos vivendo aquilo, pareça ocupar o mundo inteiro.

Talvez seja por isso que a pergunta que guia o trabalho do Estúdio Malice Fotografia seja tão simples:

“Do que você quer se lembrar amanhã?”

Talvez não precisemos fotografar menos

Talvez precisemos apenas olhar mais para aquilo que fotografamos.

Escolher.

Organizar.

Imprimir.

Revisitar.

E, principalmente, contar as histórias que existem por trás das imagens.

Porque nossos celulares estão ficando cada vez melhores em armazenar fotografias. Podemos guardar milhares delas sem ocupar uma única gaveta da casa.

Mas existe outro lugar onde essas imagens precisam continuar existindo:

na memória da nossa família.

Então, quando terminar de ler este texto, experimente fazer uma coisa.

Abra a galeria do seu celular e volte exatamente um ano.

Veja onde você estava.

Veja como seus filhos estavam.

Observe o cabelo, o tamanho deles, a casa, as roupas, os brinquedos e as pessoas ao redor.

Talvez você encontre uma fotografia da qual nem se lembrava mais.

E talvez, por alguns segundos, ela consiga fazer algo extraordinário:

levar você de volta para um dia que já passou.

É por isso que fotografamos.

Não apenas para guardar.

Mas para poder voltar.

Maria Alice Mazzucco (Malice)
Publicitária, fotógrafa, mãe da Olivia e da Estela e fundadora do Estúdio Malice Fotografia, em Itu (SP). Atua há oito anos fotografando gestantes, recém-nascidos e famílias.

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    Malice Mazzucco

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